. A calamidade de quem busca fugir do que os outros escolheram que você seja
. Roteiro: Hubert
. Arte: Vincent Mallié
. Título original: Ténébreuse
. Publicação original: Dupuis / coleção Aire Libre, 2021–2022
. Edição brasileira: Comix Zone, 2025, volume único, 152 páginas
. Gênero: fantasia medieval, conto sombrio, tragédia, romance
. Avaliação: ★★★★
Existem narrativas que se iniciam como fábulas famosas: um cavaleiro, uma princesa, um castelo, uma maldição. Tenebrosa surge desse antigo imaginário, porém rapidamente mostra que não tem interesse em recontar histórias encantadas. Hubert prefere contemplar os destroços delas.
Arzhur é um cavaleiro marcado por sua história, um homem que viu sua honra ruir e parece estar destinado a carregar eternamente o peso das opiniões alheias. Islen, por outro lado, enfrenta uma prisão distinta: não está apenas trancada dentro de um castelo, mas também nas expectativas que têm sobre o que ela deve se transformar. Sendo filha de uma mulher que inspira temor e herdeira de habilidades perturbadoras, ela se desenvolve sob a influência de um destino que parece ter sido selado antes de seu próprio nascimento.
É nesta conexão que Tenebrosa descobre seu poder máximo. Arzhur busca fugir de seu passado; Islen tenta se livrar da imagem que os outros têm dela no amanhã. Ele é caçado por sua história. Ela, pelas promessas do que está por vir.
E entre os dois surge um enredo de amor triste, formado mais pela noção de entendimento do que pela ideia de resgate. Quem sabe seja exatamente isso que eles proporcionam um ao outro: a chance de serem reconhecidos sem as obrigações das narrativas que os antecedem.
Islen é particularmente cativante, pois Hubert não busca torná-la uma heroína impecável. Ela possui doçura, mas também raiva. Há fragilidade, mas também violência. Seus poderes são ao mesmo tempo libertadores e aterrorizantes. Ao reagir contra aqueles que a consideram um monstro, acaba dando ao mundo mais motivos para temê-la.
Essa ambiguidade é fundamental.
Tenebrosa não questiona apenas se Islen é boa ou má. Questiona se é possível escolher livremente quem se quer ser quando família, sangue e sociedade insistem em escolher primeiro.
A conexão com sua mãe aprofunda ainda mais esse conceito. Islen não herda apenas poderes, mas também medos, mágoas e cicatrizes. A verdadeira maldição da obra pode não ser de natureza sobrenatural. Trata-se do legado emocional transmitido de uma geração a outra.
Vincent Mallié converte essa tragédia em algo visualmente belo. Suas florestas parecem esconder mistérios, seus castelos carregam a história dos séculos e seus personagens têm uma expressividade que dispensa diálogos longos. Mesmo quando a violência permeia a cena, as páginas possuem uma beleza quase sutil.
Esse contraste é ideal para a obra: em Tenebrosa, o que aparenta ser belo pode ocultar maldade, ao passo que o que parece monstruoso pode revelar humanidade.
Além disso, a ambientação medieval serve menos como uma reconstrução histórica e mais como uma recordação de um mundo antigo. Trata-se da Idade Média dos contos, lendas e romances de cavalaria, um contexto em que Hubert desconstrói seus próprios arquétipos. O cavaleiro não é completamente heróico. A princesa não aguarda passivamente por resgate. O monstro também pode ser vítima. E o amor, por mais genuíno que seja, não possui poder para eliminar todas as consequências.
O principal problema da obra reside no ritmo. Há ocasiões em que Tenebrosa aparenta correr quando, na verdade, deveria ficar em silêncio. O romance, certas revelações e, sobretudo, o desfecho mereciam mais espaço. A tragédia é eficaz, mas poderia ser mais impactante se Hubert tivesse permitido que algumas emoções se manifestassem.
Também há decisões controversas no passado de Arzhur, notadamente o emprego de uma falsa acusação de estupro como mecanismo de sua queda. Tal escolha contribui para o tema da reputação, porém é um recurso delicado e desnecessário diante da riqueza do restante da narrativa.
Ainda assim, esses defeitos não chegam a comprometer a harmonia do conjunto.
Em essência, Tenebrosa trata de indivíduos que procuram se desvencilhar das narrativas que lhes foram impostas.
Arzhur luta para demonstrar que o passado de um homem não precisa selar sua identidade para sempre. Islen, por sua vez, tenta sustentar a ideia de que o sangue não governa o que virá.
Talvez por isso a obra transborde uma certa melancolia.
Há destinos dos quais conseguimos nos libertar.
E há outros que só notamos, tarde demais, que sempre andaram ao nosso lado.




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