O Raio Cai Duas Vezes No Mesmo Lugar

Roteiro: Joshua Williamson
Arte: Carmine Di Giandomenico
Editora: Panini
Páginas: 344

Uma das tarefas mais desafiadoras ao lançar a iniciativa Rebirth em 2016 foi a reconstrução de Barry Allen. Desde seu retorno em Flash e especialmente durante os Novos 52, o personagem passou a ser uma figura paradoxal: embora ainda fosse um dos principais ícones da editora, havia perdido grande parte de sua identidade emocional. O homem que antes simbolizava otimismo, legado e comunidade tornou-se um herói excessivamente introspectivo, geralmente retratado como um cientista melancólico fugindo de uma tragédia para outra.

As treze edições iniciais de The Flash, escritas por Joshua Williamson, foram criadas especificamente para abordar essa questão. Além de uma nova etapa, elas representam um esforço intencional para reconfigurar o sentido de Barry Allen no século XXI. E o fazem por meio de uma questão simples, porém de grande relevância: o que ocorre quando a velocidade deixa de ser uma habilidade individual e passa a ser uma vivência coletiva?

A premissa inicial é excelente. Uma tempestade da Força de Aceleração atinge Central City, concedendo habilidades especiais a várias pessoas. A decisão de Williamson é narrativamente audaciosa, pois quebra a estrutura convencional das histórias do Flash. A velocidade, que por décadas foi considerada um privilégio mítico de poucos personagens, torna-se acessível a todos. De repente, Barry tem que lidar não só com criminosos, mas também com pessoas comuns que ganham habilidades que podem mudar suas vidas de forma drástica.

É exatamente nesse ponto que o autor revela sua compreensão mais profunda do personagem.

Ao passo que a maioria dos super-heróis da DC atua principalmente por meio do combate, Barry Allen adota a função de educador. Ele treina os novos velocistas, desenvolve protocolos, ensina responsabilidade e se esforça para evitar que o poder recém-adquirido resulte em tragédia. Vários críticos americanos destacaram que o principal mérito do arco é recuperar o sentimento de parceria e legado que quase se perdeu nos Novos 52, colocando Barry novamente como um mentor e organizador de uma comunidade de velocistas.

Essa abordagem confere ao personagem uma dimensão quase didática.

O Flash de Williamson não é somente um herói que resgata pessoas. É uma pessoa que acredita que as pessoas podem aprender a usar o poder de forma ética. No aspecto temático, o livro se transforma em uma reflexão sobre responsabilidade coletiva e formação de comunidade. A noção de que o heroísmo não está na exclusividade do dom, mas na habilidade de ensinar os outros a usá-lo de forma adequada, carrega um profundo sentido humanista.

Não é por acaso que a palavra "família" esteja presente em quase todas as relações discutidas nessas edições.

O retorno de Wally West no especial Rebirth atua como um tipo de manifesto programático. O próprio Rebirth da DC promovia a restauração de valores como amizade, esperança e legado. Williamson entende completamente esse espírito e busca incorporá-lo ao mundo do Flash. A presença de Wallace West, Avery Ho, Meena Dhawan e August Heart não é apenas uma adição ao elenco. Cada personagem simboliza uma tentativa de reconstituir o conceito da Família Flash, um aspecto que foi bastante ignorado durante os Novos 52.

Entretanto, é exatamente nesse momento que as primeiras fragilidades da obra se manifestam.

Williamson expressa uma preocupação evidente em criar bases para histórias futuras. Várias subtramas são apresentadas ao mesmo tempo: a organização Black Hole, os novos velocistas, mudanças na Força de Aceleração, consequências do retorno de Wally e enigmas envolvendo August Heart. Como resultado, a narrativa se preocupa demais em plantar sementes para o futuro em vez de desenvolver o presente. Alguns críticos apontaram que o primeiro arco se assemelha mais a um prólogo extenso do que a uma narrativa completamente independente.

Essa particularidade é especialmente notável em Godspeed.

A criação de August Heart é, sem dúvida, a maior contribuição de Williamson ao universo do Flash. Desde Hunter Zolomon, em 2001, o personagem não teve um novo vilão com tanta capacidade. Godspeed reflete a moral de Barry Allen. Ambos têm fé na justiça. Ambos enfrentaram perdas. Ambos querem resguardar os inocentes.

A diferença reside nas abordagens.

August chega à conclusão de que o sistema jurídico não é capaz de erradicar o mal e que a execução de criminosos é uma forma legítima de justiça. Por outro lado, Barry mantém sua crença em limites éticos e institucionais. 

Em teoria, é um conflito muito rico.

Na prática, no entanto, a implementação enfrenta dificuldades.

A identidade de Godspeed é muito previsível. A revelação de que August Heart é o vilão ocorre bastante cedo, e suas motivações nem sempre correspondem totalmente às suas ações. Em certos momentos, o personagem parece alternar entre um vigilante trágico e um assassino em série, gerando uma certa inconsistência psicológica.

O conceito, no entanto, continua sendo poderoso. Godspeed não tem a intenção de eliminar Barry, ele quer demonstrar que Barry está equivocado. Essa distinção é fundamental. O conflito transcende sua dimensão puramente física e adquire uma natureza ética e filosófica. Pela primeira vez em bastante tempo, um vilão do Flash não é apenas a antítese de sua velocidade, mas também a antítese de sua perspectiva moral.

A partir da edição 9, Williamson altera consideravelmente o tom, enquanto era abordado a responsabilidade coletiva, desse capítulo para frente começa a se explorar os limites emocionais de Barry Allen.

O uso de Shade possibilita que a história adquira elementos de horror psicológico. A escuridão que cobre Central City serve como uma representação tangível dos medos, culpas e ansiedades de seus moradores. O herói começa a enfrentar não só um adversário externo, mas também suas próprias dúvidas: o receio de fracassar, de perder entes queridos e de não atender às expectativas que lhe são impostas.

Essa segunda parte das treze edições tem um impacto comercial menor e é raramente mencionada pelos leitores, mas pode ser a mais interessante em termos de desenvolvimento de personagem. Ela enfatiza que Barry Allen é caracterizado mais por sua persistência emocional frente às adversidades do que por sua velocidade.

Em outras palavras, Williamson busca restaurar a humanidade ao personagem.

. Carmine Di Giandomenico é o artista responsável pela arte.

Poucos ilustradores contemporâneos conseguem representar a velocidade de forma tão visceral. Os corpos se alteram. As linhas cinéticas percorrem as páginas. Os enquadramentos parecem estar se expandindo.

As sequências de perseguição entre Flash e Godspeed criam uma sensação de movimento quase abstrata, o que é extremamente apropriado para um personagem cuja principal habilidade é superar as limitações físicas da realidade.

. Problemas

A legibilidade é frequentemente comprometida em prol da energia visual. A arte de Di Giandomenico é notavelmente única e criativa, porém, muitas vezes, não tem espaço para se desenvolver plenamente devido ao excesso de narração e explicações textuais no roteiro. Em outros casos, a própria divisão das páginas torna mais difícil entender a ação espacialmente.

Essa tensão entre experimentação visual e clareza narrativa acaba servindo como uma metáfora involuntária da fase inicial de Williamson. A história é sim ambiciosa, desejam reestruturar Barry Allen, trazer de volta a Família Flash, formar novos velocistas, estabelecer novos vilões, preparar dezenas de histórias futuras.

E, curiosamente, conseguem fazer quase tudo isso de maneira satisfatória, embora raramente alcancem excelência em cada um desses aspectos individualmente.

. Conclusão 

Depois de anos sem abordar o tema, o Flash retomou a narrativa sobre conexões humanas. O conceito de velocidade recuperou seu significado simbólico: correr não é apenas se mover rapidamente, mas também conectar pessoas, transmitir esperança e construir uma comunidade.

Ao longo de toda a história a impressão é de que se leu mais um manifesto de intenções do que uma extensa saga autônoma. Joshua Williamson não apresenta a melhor história de Barry Allen — esse título ainda é reservado às fases de Mark Waid e Geoff Johns —, mas alcança algo talvez igualmente significativo: faz o leitor retomar a crença de que Barry Allen merece ser o protagonista de sua própria revista.

. Nota: 8,5

Comentários