- Ficha Técnica
. Título original: Jusqu’au dernier
. Roteiro: Jérôme Félix
. Arte: Paul Gastine
. Editora (Brasil): QS Comics
. País de origem: França
. Gênero: Faroeste / Drama
- Resenha
O Último Homem, de Jérôme Félix e Paul Gastine, é uma graphic novel que ganha força exatamente no ponto de interseção entre o conteúdo narrado e a forma como é apresentado. É um faroeste crepuscular que tem plena consciência de estar contando o fim de um mundo, e essa consciência permeia tanto o roteiro quanto a construção visual do filme.
O roteiro de Jérôme Félix se baseia em uma premissa clássica: o fim da era dos cowboys em face do progresso da modernidade. Contudo, o texto não recorre à nostalgia simples nem à idealização do passado. A figura de Russell, o vaqueiro experiente que busca deixar a estrada, não é apresentada como um herói mítico, mas como um homem fora de seu tempo, preso a valores morais que não têm mais lugar no novo Oeste. Essa abordagem se torna mais profunda precisamente porque Félix escreve de forma econômica: os diálogos são contidos, frequentemente funcionais, e o silêncio desempenha um papel central no drama. A trama avança mais por ações, olhares e consequências do que por explicações — um roteiro que se apoia na imagem para transmitir significados.
É nesse aspecto que a arte de Paul Gastine se torna fundamental. Seu estilo realista, fortemente influenciado pelo cinema, utiliza composições que remetem ao western clássico, porém filtradas por uma sensibilidade atual. Os planos abertos destacam a imensidão da paisagem e, simultaneamente, a insignificância dos personagens frente a ela; os closes persistem em mostrar rostos marcados, sulcados pelo tempo e pela violência. Gastine converte o espaço em um componente narrativo: estradas, cidades empoeiradas e interiores sufocantes não são apenas cenários, mas reflexos do dilema moral da trama.
A organização da página fortalece o ritmo do roteiro. As sequências mais reflexivas utilizam quadros amplos e espaçados, possibilitando que o leitor “absorva” o desfecho daquele universo. Por outro lado, os momentos de tensão e brutalidade aceleram a leitura com quadros mais fechados, cortes secos e uma fragmentação visual que reflete a quebra dos valores em disputa. Assim, a narrativa gráfica não apenas ilustra o texto, mas também interage com ele, frequentemente antecipando ou explorando emoções que o roteiro apenas insinua.
A cor também tem um papel importante nessa integração. A paleta inclina-se para os tons terrosos, ocres e dessaturados, enfatizando a noção de desgaste e esgotamento histórico. Quando aparecem contrastes mais intensos, eles não contribuem para o espetáculo, mas para a ênfase dramática — o vermelho da violência, o amarelo seco do sol, o azul gelado que indica isolamento. Desse modo, a cor funciona como um comentário silencioso da narrativa, guiando o leitor emocionalmente sem precisar de explicações verbais.
Como resultado, temos uma obra em que forma e conteúdo coexistem. O discurso sobre o fim de uma era se manifesta não só no conteúdo, mas também na própria forma da narrativa visual: no ritmo lento, nos silêncios prolongados e nos corpos fatigados que preenchem páginas inteiras. O Último Homem não tem a intenção de reinventar o faroeste, mas o revisita de forma madura, reconhecendo que narrar essa história nos dias de hoje requer menos épica e mais introspecção.
Nesse contexto, a graphic novel se sobressai como um exemplo robusto de integração entre roteiro e arte, em que cada componente fortalece o outro. Félix escreve um faroeste sobre homens que não se encaixam mais em sua época; Gastine retrata esse deslocamento com exatidão visual e sensibilidade. Juntos, criam uma narrativa em que o fim do Oeste não é apenas um fato histórico, mas uma vivência estética e emocional completamente expressa na linguagem dos quadrinhos.
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