HQ: Sharaz-De

 - Ficha Técnica

. Autor: Sergio Toppi
. País de origem: Itália
. Publicação original: 1979–1983 (episódios publicados em revistas europeias, reunidos posteriormente em álbum)
. Gênero: Fantasia; narrativa inspirada nas Mil e Uma Noites
. Editora original: CEPIM / Edizioni L’Isola Trovata (e posteriormente Sergio Toppi Collection)
. Técnica de arte: Nanquim, uso intenso de contraste, composições livres sem grade fixa
. Temas: Poder, violência, destino, oralidade, o ato de narrar, imaginação como resistência

- Resenha

A força de Sharaz-De, de Sergio Toppi, surge precisamente da combinação entre narrativa e imagem — uma fusão tão intensa que, em diversos momentos, é complicado estabelecer onde termina o roteiro e onde começa a arte.  No quadrinho, a palavra desencadeia imagens, e as imagens, por sua vez, dão sentido às palavras.  Toppi reinventa o espírito das Mil e Uma Noites de maneira menos literária e mais ritualística, transformando o ato de contar — e o ato de ouvir — em um drama central.

A moldura narrativa, em que Sharaz-De narra histórias ao rei Shahriar para postergar sua execução, atua mais como ritmo do que como enredo: a cada nova história, Toppi explora um novo território visual.  A estrutura episódica possibilita que cada narrativa seja abordada como uma variação temática — poder, ambição, destino, violência —, porém o que realmente une o conjunto é a poética visual.  As histórias são sucintas, quase como esqueletos narrativos; elas funcionam como alicerce para que a arte as amplie, envolva em mistério e molde sua atmosfera.


A arte de Toppi preenche a página com composições que desafiam qualquer convencionalismo: não existe uma grade fixa, e a distribuição do espaço é sempre dramática, orientada pelas tensões internas da cena.  Ele utiliza linhas verticais rítmicas, manchas de preto intenso, texturas que remetem a xilogravuras e cortes bruscos para moldar a narrativa.  Embora cada página funcione como um organismo independente, ela nunca se desconecta da sequência. A fragmentação visual enfatiza a ideia de Sharaz-De como uma artesã de histórias que se renovam a cada noite.

Essa estética, caracterizada pela grandiosidade das figuras e pelo uso expressivo do contraste, intensifica o aspecto mítico do texto.  O roteiro traz histórias simples, porém repletas de simbolismo; por sua vez, o desenho as converte em alucinações visuais, em que o deserto preenche toda a página e os personagens aparecem como totens, sombras e ícones.  É dessa maneira que Toppi intensifica o significado das narrativas: uma história de traição transforma-se em uma composição fragmentada e tortuosa; uma história de autoridade é retratada com figuras imensas e pesadas; uma história de astúcia adquire traços mais leves, fluidos, quase dançantes.


A arte não serve como ilustração do texto, mas como interpretação.  Quando Sharaz-De se expressa, a imagem preenche o que não é verbalizado, desvendando sutilezas emocionais ou morais.  Os silêncios gráficos, os espaços em branco e os fundos vazios têm o mesmo poder narrativo que os detalhes cuidadosamente elaborados.  A combinação de palavra e imagem surge exatamente dessa tensão: o texto fornece a estrutura, enquanto a imagem proporciona a substância, o volume e o impacto.

Em última análise, Sharaz-De se destaca como uma obra em que o ato de narrar histórias é representado de forma visual: cada composição é um gesto, um sopro, uma busca pela sobrevivência.  A arte monumental e fragmentada de Toppi espelha a vulnerabilidade da narradora e a força da imaginação; o roteiro minimalista, quase oral, proporciona o ambiente para que essa imaginação se desenvolva.  Como resultado, temos uma história em quadrinhos na qual narrativa e arte se unem em um único fluxo — uma experiência estética que demanda contemplação e transforma cada página em um microcosmo do próprio poder da ficção.

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