Corto Maltese - O Dia de Tarowean

- Ficha Técnica

. Título original: Il giorno di Tarowean
. Série: Corto Maltese
. Autor: Hugo Pratt (roteiro e arte)
. Ano de publicação original: 1972
. Primeira publicação: Linus (Itália)
. Gênero: Aventura, histórico, filosófico
. Ambientação: País de Gales
.Idioma original: Italiano
. Formato: História curta (álbum / narrativa autônoma dentro da série)
. Estilo gráfico: Traço minimalista, uso expressivo de sombras e espaços vazios

- Resenha

Em O Dia de Tarowean, Hugo Pratt cria uma obra em que a narrativa e a forma visual não só conversam entre si, mas também se espelham reciprocamente, funcionando como duas camadas indissociáveis de um único texto.  A história rejeita a aventura como uma sequência de acontecimentos e a transforma em uma vivência sensorial e intelectual, apoiada por um roteiro intencionalmente fragmentado e por uma arte que valoriza a sugestão, o silêncio e a ambiguidade.

O roteiro se estrutura mais como trajetória do que como enredo.  Corto Maltese não é guiado por metas definidas, mas por indícios dispersos, como documentos antigos, nomes, ruínas e lendas.  O avanço da narrativa se dá por acúmulo simbólico, e não por causalidade.  Essa estrutura instável reflete diretamente a maneira como Pratt representa o tempo e o espaço.  As transições entre cenas são bruscas e, frequentemente, sem explicação; além disso, os quadros não se conectam de forma lógica, mas atuam como fragmentos de memória ou sonho.  Como resultado, a leitura se assemelha mais à interpretação de um poema do que ao seguimento de uma narrativa clássica.


Pratt emprega o preto e branco como uma linguagem narrativa independente do ponto de vista visual.  Os grandes vazios, as páginas com poucos quadros e a economia extrema do traço criam intervalos que, no plano visual, correspondem às lacunas do texto.  O silêncio visual intensifica o que não é expresso no roteiro.  Ao invés de representar informações, as ilustrações estabelecem um clima de incerteza, convidando o leitor a atribuir significados.  As paisagens do País de Gales — castelos em ruínas, caminhos tortuosos, espaços desabitados — servem como metáforas visuais da busca de Corto: locais impregnados de história, porém desprovidos de certezas.

A personagem Corto Maltese é criada seguindo a mesma lógica de contenção.  Pratt quase nunca destaca emoções usando expressões faciais marcantes.  A expressão facial quase inalterada, os movimentos sutis e a postura descontraída contrastam com a profundidade simbólica do que é expresso ou insinuado nos diálogos.  O roteiro caracteriza Corto como uma pessoa que fala pouco e escuta muito, e a arte enfatiza essa qualidade ao retratá-lo frequentemente imerso na paisagem, quase fundido com ela.  Desse modo, personagem e cenário não são opostos; eles se integram como elementos de um mesmo tecido narrativo.


Os elementos esotéricos, como o tarô, rituais antigos, e a memória templária e celta, não são apresentados de maneira didática. O roteiro os apresenta como sinais misteriosos, enquanto a arte se abstém de qualquer representação espetacular ou ilustrativa desses símbolos. Pratt, ao contrário, utiliza enquadramentos oblíquos, jogos de sombra e composições incompletas para manter o mistério. A conexão entre texto e imagem está precisamente nessa recusa de uma explicação completa: ambos funcionam por meio de sugestões, mantendo o significado sempre em aberto.

Em conclusão, O Dia de Tarowean se destaca como uma obra em que a narrativa depende de sua forma visual, assim como a arte não teria significado sem o caráter elíptico do roteiro.  Pratt converte a HQ em um ambiente de leitura dinâmica, onde entender é aceitar a incompletude.  A aventura deixa de ser conquista ou resolução e se transforma em experiência estética e intelectual, em que narrativa e imagem se unem para criar uma história em quadrinhos profundamente literária e reflexiva.

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