- Ficha Técnica
. Roteiro e Arte: Patrick Prugne
. Colorização: Patrick Prugne (aquarelas)
. País de origem: França
. Gênero: Ficção histórica / Drama / Aventura
. Formato original: Álbum europeu (bande dessinée)
. Publicação original: Editions Daniel Maghen
. Editora: Figura (Brasil)
. Número de páginas: 80
- Resenha
A força de Pocahontas, de Patrick Prugne, surge da união inseparável entre narrativa e arte — uma combinação tão natural que o roteiro só se completa quando permeado pelas aquarelas, e a arte só se concretiza porque guia sutilmente o leitor por uma dramaturgia baseada no silêncio, na tensão e na ambiguidade histórica.
Prugne desenvolve a narrativa por meio de um gesto de contenção textual: os diálogos são escassos, quase sempre funcionais, e a exposição é evitada a todo custo. Ao contrário, o autor atribui à imagem a responsabilidade de desvelar motivações, dúvidas e conflitos. A interação entre os povos algonquinos e colonos ingleses não é descrita — ela é retratada. O leitor entende as alianças frágeis, os medos recíprocos e os conflitos culturais não por meio de explicações verbais, mas pelas distâncias físicas entre os personagens, pelos olhares que se desviam e pelos enquadramentos que se aproximam ou se afastam à medida que a tensão aumenta. Assim, o roteiro descobre sua verdadeira estrutura na mise-en-scène visual.
Essa conexão se destaca na maneira como Prugne combina ritmo e espaço. Muitas páginas atuam como planos-sequência visuais, apresentando amplas panorâmicas de florestas, rios e vilarejos que interrompem a narrativa para ambientar o leitor antes de introduzi-lo em um conflito. A paisagem não é apenas um cenário; é um elemento narrativo. Ela determina as ações e estabelece o clima emocional dos encontros — a neblina que desfoca contornos e gera dúvidas, o silêncio da floresta que intensifica a estranheza para os ingleses, a luz suave que acompanha Pocahontas e a envolve em uma atmosfera quase mística, sem nunca a idealizar.
A arte em aquarela — com tons terrosos, verdes diluídos e azuis suavizados — funciona como um vocabulário emocional para a história em quadrinhos. Cada nuance de cor atua como uma extensão do subtexto do roteiro: a paleta mais fria em momentos de tensão política; os tons quentes e luminosos em situações de aproximação cultural ou equilíbrio relativo; as sombras e tonalidades opacas quando a violência se aproxima. A narrativa avança não pelo conteúdo verbalizado, mas pelo que as cores insinuam.
Da mesma maneira, o traço das personagens evidencia o que o roteiro opta por não verbalizar. Por exemplo, Pocahontas não é retratada como uma heroína imutável; sua personagem é formada pela alternância de enquadramentos amplos — que a inserem na paisagem e destacam sua posição entre mundos — e closes de expressão contida, evidenciando a importância de seu papel político. Os ingleses, retratados com características mais angulosas e tons pálidos, aparentam estar constantemente fora de lugar, quase espectrais, sendo vítimas e protagonistas de um processo colonial ao mesmo tempo cruel e desesperador. Esse contraste plástico atua como um comentário histórico, que o roteiro sugere de forma implícita e a arte torna explícito.
A integração entre imagem e narrativa atinge seu auge nos momentos de conflito. Prugne não recorre à espetacularização gráfica da violência; ao contrário, a tensão dramática emerge do uso deliberado do vazio, dos espaços amplos e silenciosos que precedem o impacto. A disposição das páginas — frequentemente com diagonais que direcionam o olhar para áreas de perigo iminente — gera uma expectativa constante. Não existem surpresas gratuitas; existe a construção visual da inevitabilidade. A dramaturgia reside nas linhas, não nos diálogos.
Como um todo, Pocahontas se destaca como uma obra em que a narrativa é transmitida pela atmosfera, em vez de pelo discurso direto. Trata-se de uma história em quadrinhos que só pode existir nesse formato híbrido, no qual o roteiro é um sopro que a arte converte em vivência sensorial e histórica. A conexão entre texto e imagem não é apenas complementar, mas essencial: Prugne escreve com pinceladas e pinta com intuições narrativas. O resultado é uma leitura de grande sutileza e profundidade crítica, que resgata a complexidade de uma figura muitas vezes mitificada e converte o encontro colonial em uma narrativa de silêncio, estranhamento e beleza angustiante.
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