- Resenha
O Trem Italiano da Felicidade, dirigido por Cristina Comencini e inspirado no romance de Viola Ardone, estreia como um drama histórico de intensa carga emocional, fundamentado na reconstrução da Itália após a Segunda Guerra Mundial. O filme aborda os temas de memória, identidade e deslocamento, acompanhando a trajetória de Amerigo, um garoto de Nápoles enviado ao norte do país pelos chamados trens da felicidade. Essas foram iniciativas sociais que, na realidade, acolheram milhares de crianças carentes do sul da Itália entre 1946 e 1952.
Comencini opta por uma narrativa intimista, guiada mais pela sensibilidade do olhar infantil do que por uma abordagem panorâmica da História. É no microcosmo da experiência de Amerigo que o filme constrói sua força: a relação ambivalente com a mãe, Antonietta; a descoberta de um mundo mais rico e organizado no norte; e, principalmente, o vínculo com Derna, a jovem que o acolhe temporariamente. O diretor de fotografia faz uso inteligente de contrastes cromáticos — o sul em tons mais quentes e opacos, o norte em luz fria e limpa — para reforçar a dualidade que configura o próprio conflito do protagonista: pertencer ao lar que o acolhe ou ao lar que o gerou.
A performance do jovem Christian Cervone é um dos alicerces do filme. Ele retrata Amerigo de forma expressiva, mas contida, evitando o sentimentalismo que caracterizaria um drama convencional sobre a infância. Serena Rossi (Antonietta) retrata a figura materna com uma combinação de dureza e fragilidade: é uma mãe que ama, mas não pode dar, e sua decisão de enviar o filho demonstra uma coragem angustiante. Barbara Ronchi, no papel de Derna, representa um novo tipo de maternidade — mais carinhosa, contemporânea e politicamente ativa — espelhando os movimentos culturais e ideológicos do norte da época.
No entanto, o roteiro por vezes exagera ao didatizar os temas sociais. Há momentos em que a exposição é pouco sutil, como se o filme precisasse lembrar constantemente ao espectador que a desigualdade italiana é um legado histórico estrutural. No entanto, essas passagens não comprometem o todo, que se mantém no equilíbrio entre emoção e crítica social.
A direção de Comencini demonstra um cuidado especial na construção dos silêncios: olhares que se desviam, mãos que hesitam, gestos que são interrompidos — elementos que, mais do que os diálogos, expõem a jornada interna das personagens. O filme se destaca precisamente quando aposta nessas pausas, permitindo que a experiência do deslocamento, tanto físico quanto emocional, prevaleça sobre a trama.
A segunda parte, que aborda o impacto duradouro da viagem na vida adulta de Amerigo, é mais curta e menos detalhada do que a primeira. Mesmo assim, serve como um fechamento melancólico e coerente: o trem da felicidade não é, afinal, um trem de retorno. Trata-se de um rito de passagem que tanto transforma quanto fratura, e o filme aborda essa ambiguidade de maneira honesta.
Em resumo, "O Trem Italiano da Felicidade" é um drama histórico sensível que trata da infância, pobreza e memória com uma delicadeza incomum para produções desse tipo. Embora apresente alguns exageros narrativos, oferece uma representação impactante da Itália pós-guerra e de como a solidariedade, mesmo quando é bem-intencionada, pode se tornar um fator de divisão de destinos.
Uma obra que toca pela sutileza e permanece pela reflexão.
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