Escrito por Arthur Vieira
Ficha Técnica
. Título original: Ciudad
. Autores: Ricardo Barreiro (roteiro) e Juan Giménez (arte)
. Ano de publicação: 1981–1983 (publicação seriada), depois reunida em álbum.
. Gênero: Ficção científica distópica, drama existencial.
. País de origem: Argentina
Resenha
Cidade é um dos principais marcos da ficção científica em quadrinhos latino-americana. O livro cria um mundo que é tanto tangível quanto onírico, proporcionando ao leitor uma experiência quase opressiva. Ricardo Barreiro organiza a história como uma viagem existencial, na qual seguimos um personagem sem nome que acorda em uma metrópole aparentemente sem fim, sem recordar quem é ou como chegou até ali. Essa perda de identidade serve como uma metáfora para o ser humano contemporâneo, desconectado de suas raízes e preso em sistemas que não possui controle.
O roteiro de Barreiro é perspicaz e fragmentado, sem oferecer explicações simples ou um “final feliz” que desvende o mistério. A cidade é viva, em constante transformação, ora hostil, ora indiferente — uma personagem por si só. O protagonista encontra personagens simbólicos (revolucionários, burocratas, fanáticos religiosos) que personificam diversas maneiras de enfrentar a opressão no ambiente urbano. Essa variedade de encontros faz com que a obra transite entre surrealismo, horror existencial e crítica social, mantendo sempre um tom político subentendido, característico do período de ditadura que a Argentina enfrentava quando a HQ foi criada.
A arte de Juan Giménez é um show à parte. Seus cenários são grandiosos, extremamente detalhados e repletos de texturas, fazendo com que o leitor sinta como se estivesse perdido em um labirinto de concreto e aço. Existe uma estética que combina brutalismo arquitetônico, cyberpunk e elementos visuais do cinema expressionista, intensificando a sensação de claustrofobia. Os personagens são expressivos, com rostos marcados pela angústia e pelo cansaço, evidenciando o fardo psicológico do cenário.
Do ponto de vista temático, Cidade é uma reflexão sobre identidade, controle e liberdade. Não existe um vilão único — o "adversário" é a própria organização da cidade, seu sistema inevitável. Esse aspecto metafórico mantém a relevância da HQ mesmo décadas depois de sua publicação: a obra ainda ressoa para aqueles que experimentam a alienação no mundo contemporâneo, o sentimento de opressão causado pelas rotinas e instituições.
A cidade proporciona uma experiência tanto sensorial quanto intelectual. Não é uma narrativa de ação ou aventura no sentido convencional, mas uma exploração da mente humana e do espaço urbano como metáfora existencial. A história em quadrinhos mescla arte monumental com um enredo instigante, levando o leitor a sentir a magnitude da cidade e a ponderar sobre sua própria conexão com o mundo. Trata-se de uma leitura indispensável para os amantes de quadrinhos que instigam o pensamento, combinando filosofia, política e ficção científica de maneira madura e complexa.
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