Uma Jornada Poética e Melancólica ao Desconhecido
Por Deus ou Pelo Acaso é uma coletânea de histórias da quadrinista Becky Cloonan, com a contribuição essencial das cores de Lee Loughridge, transcende a definição de simples coletânea de histórias em quadrinhos; trata-se de uma experiência envolvente que provoca reflexões e fascina. Lançada no Brasil pela Pipoca & Nanquim, a obra compila três contos breves – "Lobos", "O Pântano" e "Deméter" – que, apesar de autônomos, se conectam por uma atmosfera carregada de melancolia, misticismo e uma beleza gótica única.
A Arte Que Fala Por Si
Sem dúvida, o maior destaque de Por Deus ou Pelo Acaso está na arte sublime de Becky Cloonan. Seu traço é ao mesmo tempo sutil e poderoso, capaz de expressar uma infinidade de sentimentos com poucos e exatos contornos. As figuras humanas transmitem expressividade mesmo em sua quietude, enquanto os cenários, frequentemente desolados e oníricos, assumem o papel de personagens. A narrativa visual de Cloonan é tão poderosa que, em várias ocasiões, o texto assume um papel quase secundário, funcionando como um complemento poético. Ela é mestre em empregar o vazio e o silêncio para gerar tensão e profundidade, permitindo ao leitor uma ampla margem para interpretação.
As cores de Lee Loughridge são impressionantes e levam a experiência a um nível superior. Sua paleta é sombria e terrosa, composta principalmente por tons de cinza, marrom, verde-musgo e azuis profundos, com vermelhos e laranjas surgindo como chamas em um ambiente desolador. Loughridge emprega a cor não só para preencher, mas também para evocar emoções, realçar a atmosfera de cada conto e direcionar o olhar do leitor, amplificando a carga emocional de cada página. A harmonia entre o desenho e a cor é tão perfeita que eles se combinam em uma única linguagem visual.
Narrativas de Solidão e Destino
As três histórias abordam aspectos diferentes da condição humana diante do desconhecido e do inevitável. Em "Lobos", somos apresentados a uma jornada quase mítica, na qual a linha entre o humano e o bestial é sutil. A narrativa evoca uma sensação de inevitabilidade e um destino pré-estabelecido, no qual a violência se configura como uma força primordial.
"O Pântano", possivelmente a obra-prima e ganhador do Prêmio Eisner de Melhor Edição Única em 2013, é uma fábula obscura que aborda coragem, sacrifício e o enfrentamento de medos primordiais. A jornada da dupla de cavaleiros por um pântano repleto de criaturas e enigmas simboliza as dificuldades da vida, em que a esperança e o desespero coexistem. A ambiguidade final convida à reflexão, deixando uma sensação agridoce de beleza e perda.
Por fim, "Deméter" se aprofunda em um drama mais pessoal e arrasador, centrado em um casal recluso e no mistério que os atormenta. Trata-se de uma narrativa que aborda luto, culpa e a busca angustiada por sentido ou redenção em meio à tragédia. A mitologia grega de Deméter, deusa da colheita e maternidade, que sofre a perda de sua filha Perséfone, ecoa intensamente o tema da perda irreparável. No entanto, Cloonan inverte a história para produzir algo visceral e inquietante.
Embora se passem em um cenário que remete à Idade Média e ao folclore europeu, os temas tratados — solidão, luto, amor, sacrifício e busca por sentido em um mundo caótico — são universais e atemporais. Cloonan não apresenta soluções simples; ao contrário, ela acolhe a ambiguidade e a melancolia, permitindo que o leitor explore as profundezas da experiência humana.
Veredito Final
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