Metrópolis (Livro vs Filme)

Análise comparativa 

1. Introdução

Metrópolis é uma das obras de ficção científica mais impactantes, tanto no âmbito literário quanto cinematográfico.  O livro, de autoria de Thea von Harbou, foi publicado em 1925, enquanto a versão cinematográfica, sob a direção de Fritz Lang (marido da escritora naquele período), foi lançada em 1927.  Apesar do livro e do filme terem a mesma trama básica e cenário futurista, existem diferenças notáveis em termos de estilo, abordagem temática e simbolismo.

2. Contexto histórico

As duas obras são oriundas do período entre guerras na Alemanha, caracterizado por instabilidade social, progressos tecnológicos e conflitos políticos.  Metrópolis emerge no contexto da República de Weimar, expressando inquietações acerca da industrialização, desumanização e desigualdade social - tópicos que ressoam intensamente com o surgimento do nazismo e as crises do capitalismo.

3. Enredo central

A trama ocorre em uma metrópole futurista, que está rigorosamente dividida entre uma elite que reside na superfície cercada de luxo e trabalhadores oprimidos que mantêm a cidade em funcionamento desde as profundezas.  Freder, filho do prefeito (Joh Fredersen), se encanta por Maria, uma vidente entre os operários.  Na sua procura por justiça social, Freder se depara com seu próprio pai, uma Maria falsa programada e a opressão sistemática do sistema.

4. O livro: densidade simbólica e espiritualidade

O livro de Thea von Harbou se destaca pela sua profundidade em termos de simbolismo religioso e ética.  Ele se assemelha a uma parábola cristã, onde Freder encarna um personagem messiânico que procura unir "a cabeça" (os intelectuais, ou elite) e "as mãos" (os operários), sendo "o coração" o intermediário indispensável.
 
 No livro, Maria é ainda mais idealizada, representando a pureza espiritual, ao passo que o conflito com a "falsa Maria" (o androide) adquire características apocalípticas.  A história mergulha nas reflexões dos personagens, proporcionando espaço para reflexões filosóficas e espirituais.

5. O filme: visual revolucionário e crítica social

O longa-metragem de Fritz Lang é reconhecido pelos seus visuais expressionistas e por ter originado uma das primeiras distopias urbanas no cinema.  A grandiosidade de seus cenários, a estética art déco e a representação visual da cidade influenciaram várias gerações de cineastas.
 
 Lang minimiza o teor espiritual do livro, optando por destacar a crítica social e a opressão das massas.  A simbologia cristã permanece, porém em segundo plano, sendo substituída por uma estética que enfatiza o embate entre o ser humano e a máquina, e o perigo do autoritarismo tecnológico.

6. Diferenças marcantes

. Livro (Thea von Harbou) - Filme (Fritz Lang)

No livro temos uma ênfase na espiritualidade e redenção, os personagens de maior destaque são Maria que é uma figura profética com traços quase sagrados e Freder é o messias entre as classes, já o antagonismo existe na dualidade espiritual (Maria vs falsa Maria), tendo o livro um final conciliador e moralizante. 

No filme a ênfase fica em função da critica social e dos avanços tecnológicos, a protagonista Maria tem características morais, entretanto bem menos desenvolvida, enquanto Freder é um jovem idealista em crise, o foco acaba sendo o conflito entre o capital e trabalho, ordem e caos, o final do filme é similar ao livro, mas na minha opinião ele é mais ambíguo em sua critica. 

7. Conclusão

Metrópolis, tanto na literatura quanto no cinema, continua sendo um marco na ficção científica.  O livro de von Harbou traz uma perspectiva alegórica e espiritual, mais em sintonia com os mitos de redenção.  No entanto, o longa-metragem de Lang converteu a história em uma impactante crítica visual à alienação contemporânea, gerando imagens que se tornaram emblemas da cultura popular e do cinema.
 
 A complementaridade entre as duas versões aprimora a experiência do leitor ou espectador: enquanto o livro nos conduz a questionamentos éticos e espirituais, o filme nos cativa com a urgência política e estética de sua perspectiva do futuro.


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